segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Mensagem, Fernando Pessoa (Género épico-lírico)

 Género épico-lírico


A Mensagem é uma obra épico-lírica, pois, como uma epopeia, parte de um núcleo histórico (heróis e acontecimentos da História de Portugal), mas apresenta uma dimensão subjectiva introspectiva, de contemplação interior, característica própria do lirismo.

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Menagem, Fernando Pessoa (Estrutura)


Estrutura 

A estrutura da Mensagem, sendo a dum mito numa teoria cíclica, a das Idades, transfigura e repete a história duma pátria como o mito dum nascimento, vida e morte dum mundo; morte que será seguida dum renascimento. Desenvolvendo-a como uma ideia completa, de sentido cósmico, e dando-lhe a forma simbólica tripartida – Brasão, Mar Português, O Encoberto. Que se poderá traduzir como: os fundadores, ou o nascimento; a realização, ou a vida; o fim das energias latentes, ou a morte; essa conterá já em si, como gérmen, a próxima ressurreição, o novo ciclo que se anuncia – o Quinto Império. Assim, a terceira parte, é toda ela cheia de avisos, preenche de pressentimentos, de forças latentes prestes a virem á luz: depois da Noite e Tormenta, vem a Calma e a Antemanhã: estes são os Tempos. E aí sempre perpassarão, com um repetido fulgor, sempre a mesma mas em modelações diversas, a nota da esperança: D. Sebastião, O Desejado, O Encoberto…
É dessa forma, o mítico caos, a noite, o abismo, donde surgirá o novo mundo, “Que jaz no abismo sob o mar que se segue”.


A Mensagem está dividida em três partes. Esta tripartição corresponde a três momentos do Império Português: nascimento, realização e morte. Mas essa morte não é definitiva, pois pressupõe um renascimento que será o novo império, futuro e espiritual.

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Mensagem, Fernando Pessoa (Título)

Título



O primeiro título do livro não era "Mensagem", mas sim "Portugal". É por sugestão de um amigo - Da Cunha Dias - que Pessoa reconsidera, mudando o nome. Esse amigo ter-lhe-á indicado a evidência do nome "Portugal" estar já nessa altura demasiado vulgarizado, inclusive em marcas comerciais.
Curiosamente - ou talvez propositadamente - "Mensagem" é uma palavra com o mesmo número de letras de "Portugal". Mas uma folha no espólio explica o processo porque passou a génese deste título, que foi muito bem pensado pelo seu autor.




A razão que levou à mudança de título tem uma chave, dada pelo próprio Pessoa. A palavra portuguesa Mensagem é, como diz J. A. Seabra, "derivada anagramaticamente" da fórmula de Anquises, quando explica a Eneias, descido aos infernos, o sistema do Universo: "Mens ag (itat mol) em': "o espírito move a massa". É uma maneira de o poeta afirmar logo à partida o seu idealismo absoluto."

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Reflexões do Poeta

REFLEXÕES DO POETA

O Poeta faz diversas considerações, no início e no fim dos cantos de
Os Lusíadas,
criticando e aconselhando os Portugueses.Por um lado, refere os "grandes e gravíssimos perigos", a tormenta e o dano no mar, a guerra e o engano em terra; por outro lado, faz a apologia da expansão territorial para divulgar a Fé cristã, manifesta o seu patriotismo e exorta D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português (I, 9-12; X, 147-152). Nas suas reflexões, há louvores e diversas queixas aos comportamentos. Se realça o valor das honras e da glória alcançadas por mérito próprio, lamenta, por exemplo, que os Portugueses nem sempre saiba maliar a força e a coragem ao saber e à eloquência, destacando a importância das letras. Se critica os povos que não seguem o exemplo do povo português que, com atrevimento, chegou a todos os cantos do Mundo, não deixa de queixar-se de todos aqueles que pretendem atingir a imortalidade, dizendo-lhes que a cobiça, a ambição e a tirania são honras vãs que não dão verdadeiro valor ao homem. Daí,também, lamentar a importância atribuída ao dinheiro, fonte de corrupções e de traições.Lembrando o seu "honesto estudo, "longa experiência" e "engenho", "Cousas que juntas se acham raramente" (X, 154), confessa estar cansado de "cantar a gente surda e endurecida" (X,145 que não reconhecia nem incentivava as suas qualidades artísticas.


De entre as reflexões feitas em Os Lusíadas, merecem destaque os momentos em que o Poeta:

. refere aquilo que o homem tem de enfrentar: "Os grandes e gravíssimos perigos", a tormenta e o da no mar, a guerra e o engano em terra (Canto I, estâncias 105-106);. põe em destaque a importância das letras e lamenta que os Portugueses nem sempre saibam aliar a força e a coragem ao saber e à eloquência (Canto V, estâncias 92-100);. realça o valor das honras e da glória alcançadas por mérito próprio (Canto VI, estâncias 95-99);. faz a apologia da expansão territorial para divulgar a Fé cristã; critica os povos que não seguem o exemplo do povo português que, com atrevimento, chegou a todos os cantos do Mundo "e, se mais mundos houvera, lá chegara" (Canto VII, estâncias 2-14);. lamenta a importância atribuída ao dinheiro, fonte de corrupções e de traições (Canto VII, estâncias 96-99);. explica o significado da Ilha dos Amores (Canto IX, estâncias 89-92);. dirige-se a todos aqueles que pretendem atingir a imortalidade, dizendo-lhes que a cobiça, a ambição e a tirania são honras vãs que não dão verdadeiro valor ao homem (Canto IX,estâncias 93-95);. confessa estar cansado de "cantar a gente surda e endurecida" que não reconhecia nem incentivava as suas qualidades artísticas. Mesmo assim reafirma-o nos últimos quatro versos da estância 154 do Canto X ao referir-se ao seu "honesto estudo", à "longa experiência" e ao "engenho", "Cousas que juntas se acham raramente";. reforça a apologia das Letras (cf. Canto V, estâncias 92-100);. manifesta o seu patriotismo e exorta D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português (Canto X, estâncias 145-156).


Reflexões presentes na obra:

a insegurança e as falsidades da vida;.
o desânimo do poeta face ao desprezo dos portugueses pelas letras, e em especial pela poesia;
o valor da honra e da glória;.
o elogio à tenacidade portuguesa;
 a sua infelicidade;. a crítica aos seus opressores;
o poder do "vil metal" - ouro;
o significado e o valor da imortalidade.

O Velho do Restelo

Vasco da Gama é o narrador que canta ao rei de Melinde – narratário – a história de Portugal.
 
Esta narrativa é feita em in media rese no decorrer da conversa surge umaestreita correlação entre o episódio “Despedidas em Belém” e o episódio “O Velho do Restelo”.
Ponto d situação: aglomerado de pessoas no porto, para se despedir dos entes queridos que partiam para a Índia. No meio desse ambiente emocionado, destaca-se a figura imponente de um velho que, com a sua "voz pesada", ouvida até nas naus, faz um discurso condenando aquela aventura cujo propósito, segundo ele, é a cobiça, o desejo de riquezas, poder e fama.
O velho interveio junto dos navegadores portugueses que se aprestavam para partir para a empresa marítima da Índia, no sentido de os alertar contra os perigos da ambição em excesso e da cobiça pelas riquezas vindas do Oriente. Diz o velho que, para enfrentar desnecessariamente perigos desconhecidos, abandonavam os perigos urgentes do seu país, ainda ameaçado pelos mouros.

 
Simbologia
Representa uma corrente desfavorável à expansão para o Oriente, mais tolerante em relação à guerra no Norte de África. Traduz, ainda, o medo do desconhecido e a hesitação perante a novidade.
As falas das mães e das esposas representam a reacção emocional àquela aventura, o discurso do velho exprime uma posição racional, fruto de bom senso da experiência (“tais palavras tirou do experto peito”). É a expressão rigorosa do conservadorismo.
Como o Velho do Restelo, pensavam muitos naqueles tempos, assim como muitos pensam hoje em relação a assuntos semelhantes, como a conquista espacial ou a manipulação genética, por exemplo.
Quando representa a voz do bom senso e da fria razão assume a dimensão depersonagem alegórica – personagem que defende um ideal/princípio.
O seu discurso denuncia a suposta irresponsabilidade dos marinheiros que se deixavam levar por promessas fantasiosas, pela vitória, para uma aventura com consequências trágicas
Poder-se-á referir que todo o discurso desta figura se contrapõe á ambição explicitada ao longo da viagem realizada por Vasco da Gama. É o negar do sonho, da ambição, da capacidade de iniciativa, logo no seu discurso há:
. A voz do senso comum, dado que ele defendia a quietude simples, a rotina, a anulação do desejo.
. A negação do mar, porque as suas palavras não reflectem o desbravar dos mares, o conhecimento dos “húmidos caminhos”, mas sim, a ligação à terra, às lutas em terra travadas com os Mouros no norte de África. Ignora a natureza aventureira e bem sucedida dos portugueses.
. Um mito humanístico, pois valorizava as batalhas no norte de África, nomeadamente as conquistas em Marrocos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Sonho de D. Manuel

Simbologia do sonho profético de D.Manuel I

D. Manuel I logo que assume o poder pretende dar continuidade aos desejos do seu antecessor, na conquista de novos mares e novas terras. Numa noite sonha com vários mundos, nações de muita gente, estranha e feras e vê dois homens que pareciam muito velhos. estes apresentam-se como "os rios do Ganges e Indo". O sonho prenuncia os êxitos, a fama, o poder e a glória que se cobrirá o Rei por ter conseguido descobrir o Oriente.
Os navegantes e, em especial, o comandante Vasco da Gama, ultrapassam a sua individualidade ou a participação do herói colectivo(povo português).
São símbolo do heroísmo lusíada, do espírito de aventura e da capacidade de vivência cosmopolita.


estrutura do sonho:
-> Apresentação de condições atmosféricas e Celestes favoráveis.



Classificação de acção de D. Manuel I:
-> Sobrevalorizada pelo superlativo em "tão árdua".
-> Dupla adjectivação de caracter positivo em "subidos e ilustres movimentos".



Justificação:
-> herança dos antepassados.



Exaltação da empresa marítima.



Justificação da acção de D. Manuel

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Mitificação do Herói


Mitificação do Herói


Na obra Os Lusíadas, do escritor renascentista, o herói da epopeia é apresentado na Proposição (Canto I, est. 1-3), na qual o poeta menciona aqueles que se propõe cantar: "(. ..) o peito ilustre Lusitano, / A quem Neptuno e Marte obedeceram." A figura do herói épico nacional caracteriza-se, pois, pelos feitos grandiosos, nunca antes realizados por humanos, pela conquista da imortalidade, devido a esses feitos, pela vulnerabilidade dos deuses em relação aos portugueses, num anúncio da ascensão dos homens à condição divina, como acontecerá na Ilha dos Amores, e também pela superação dos heróis das epopeias antigas:"Cesse tudo o que a Musa antiga canta / Que outro valor mais alto se alevanta". 

Na Dedicatória (Canto I, est. 6-18), o poeta dedica o poema a D. Sebastião, reafirmando a natureza histórica do seu canto; com efeito, a epopeia camoniana não apresenta um carácter lendário como acontecera nas epopeias antigas; à obra do poeta luso está subjacente um fundo histórico - a História de Portugal - que irá adquirir a forma de uma narração épica. 

No Consílio dos Deuses no Olimpo (Canto I, est. 19-41), o herói nacional é enaltecido, sobretudo, através da oposição de Baco. Na realidade, o facto de um deus temer que a sua glória seja destruída pelos humanos serve inevitavelmente a construção do herói: "(...) O padre Baco ali não consentia / (...) conhecendo / Que esquecerão seus feitos no Oriente / Se lá passar a Lusitana gente". Com efeito, para além de todo o mérito dos nautas lusos, que é reconhecido por outros deuses (Vénus, Marte, Júpiter, que, no final da reunião, decide que os portugueses seriam ajudados a alcançar "a terra que buscavam"), é o receio de Baco que engrandece a gente lusa, conferindo-lhe um estatuto que culminará com a superação da própria condição humana realizada pelo "bicho da terra tão pequeno”, frágil e impotente perante as forças cósmicas. 

O discurso do Velho do Restelo, ainda que traduza a visão de uma parte dos portugueses, que se opunha à empresa dos Descobrimentos, e a condenação da versão oficial deste empreendimento, pode ler-se como mais um passo na construção do herói nacional. Na realidade, a comparação do ser humano a Prometeu, que roubou o fogo (símbolo da sabedoria) aos deuses e, por isso, foi castigado, e a Ícaro, aquele que voou tão alto que se aproximou do Sol, o que originou a perda das suas asas de cera e a sua morte, constitui, uma vez mais, a negação da pequenez do ser humano através do desejo de alcançar algo aparentemente inatingível, e é o facto de assumir essa vontade que permitirá ao Homem renunciar à passividade e encetar uma busca que o levará à realização das suas capacidades latentes. A vaidade e a cobiça situam-se num plano material e os feitos lusos alcançarão uma dimensão purificada, absoluta, no seu encontro com o universo. É, aliás, para a ambiguidade subjacente à forma de estar do Homem no mundo que remete o verso final do discurso do velho: "Mísera sorte! Estranha condição!", por enfatizar a dicotomia aqui (aliado à passividade) / além (que conduz à "mísera sorte", apesar de funcionar como catalisador das pulsões humanas que levam à práxis). 

Já no Canto V, com o "Fogo-de-Santelmo" e a "Tromba marítima", é o valor da práxis, aliada à experiência da percepção dos fenómenos naturais, que é enfatizado, quando Vasco da Gama, que conta ao rei de Melinde a viagem da armada portuguesa de Lisboa a Melinde, afirma: "Contar-te (...) / Causas do mar, que os homens não emendem”', "Os casos vi (...)". "Vi, claramente visto (...)" e "Eu o vi certamente (...). A repetição da forma verbal "vi" redefine a concepção livresca de saber, ao propor um novo método de captação da realidade, baseado na observação, e liga-se à visão renascentista da génese do conhecimento científico. O herói é, então, progressivamente construído ao longo da epopeia, não apenas pela sua coragem e valentia, mas porque detém um novo saber, adquirido através das suas próprias vivências e, por esse motivo, engrandece o espírito humano. É este também o sentido do episódio do Adamastor, no qual o gigante critica a ousadia do povo luso, por ter penetrado os seus domínios ("Os vedados términos"), fazendo referência à acção constante dos portugueses, o que os levou a fazer "grandes causas", pois "nunca repousa[m)". 

O discurso do Adamastor funciona como um elogio supremo aos nautas que, de início, o ouvem, receosos, escutando as suas acusações, para, progressivamente, questionarem a identidade do monstro, o que revelará a sua vulnerabilidade face aos marinheiros lusos, pois, simbolicamente, este representa o cabo das Tormentas, que os portugueses conseguiram dobrar, pelo que as lágrimas são transferidas para o Adamastor, que se afasta "cum medonho choro", determinando a vitória dos humanos sobre a natureza. 

A chegada à Índia, no Canto VII, é um pretexto para as ilações do poeta sobre a missão de Portugal na História universal, ainda que relacionadas com os ideais cristãos e políticos dominantes na época. 

Mas é na Ilha dos Amores que assistimos à realização daquilo que constitui a essência da epopeia: o poeta torna imortais os feitos do herói nacional, elevando os nautas, que, metonimicamente, representam o povo português, à condição de deuses, pois Vénus "Os Deuses faz descer ao vil terreno / E os humanos subir ao Céu sereno". Os marinheiros unem-se às deusas amorosas, que os recompensam após o seu percurso iniciático, após a superação de todas as provações, num espaço onde encontram o amor, onde as deusas "As mãos alvas lhe davam como esposas"e onde" Divinos os fizeram, sendo humanos", pois esta ilha "Outra cousa não é que as deleitosas / Honras que a vida fazem sublimada”. E, seguindo a linha de pensamento de acordo com a qual concretiza o carácter épico da sua obra, o poeta deixa um convite à continuidade da acção dos portugueses, apontando-lhes o merecido prémio. 

O mito da Ilha dos Amores surge, assim, como algo que, de facto, não existe, mas que funciona ao nível do inconsciente colectivo, como a realização dos desejos humanos associados ao ideal de uma recompensa merecida, pois o mérito é real. 

Finalmente, no Canto X, a ascensão dos heróis humanos na escala existencial é consumada, quando Tétis mostra a Vasco da Gama a máquina do mundo, constituída por onze esferas; no centro, encontrava-se a Terra, de acordo com a teoria de Ptolomeu, e os quatro elementos.